Alimentação e Sistema de Recompensa: Quando comer é emocional?
- Fabiana de Aro

- 22 de out. de 2024
- 3 min de leitura
No nosso sistema nervoso central, a comunicação entre várias áreas do cérebro é integrada através dos neurônios. Essa integração orquestra a regulação do equilíbrio energético disponível a curto e longo prazo, o registro das emoções e memórias relacionadas à experiência com a comida, o controle cognitivo de como acessar a comida ou controlar impulsos e parar de comer, e a atenção, direcionando o foco para determinados alimentos. Além disso, uma região ligada ao sistema dopaminérgico está relacionada ao comer hedônico, que envolve o sistema de recompensa e a memória da sensação de prazer que certos alimentos nos proporcionam.
O sistema que regula a fome, chamado sistema homeostático, funciona por meio da sinalização de hormônios e nutrientes, induzindo a busca por comida, ou seja, a fome fisiológica. Já o sistema hedônico, também conhecido como não homeostático, é regulado pela via dopaminérgica e está relacionado ao prazer de se alimentar e ao prazer proporcionado pelo alimento. Esse sistema motiva a busca por alimentos e atua como um sistema de recompensa. A boa notícia é que ele reforça comportamentos essenciais para a preservação da espécie, não apenas relacionados à comida, mas a tudo que traz prazer.
Assim sendo, a fome hedônica, ou comer emocional, está relacionada ao prazer de comer, que incentiva e motiva a busca por alimentos. O mais importante é o aprendizado ou a associação que fazemos com determinados alimentos, como a sensação, com quem estávamos, onde estávamos e como estávamos no momento em que consumimos o alimento. Nesse processo, ocorre a liberação de dopamina, que atua em diversas regiões do cérebro e reforça a busca por alimentos, não pela fome (sistema homeostático), mas pelo prazer (fome hedônica).
As pessoas com obesidade apresentam maior atividade desse sistema de recompensa, especialmente para alimentos ultra palatáveis, ricos em açúcares e/ou gorduras. Esses alimentos estimulam a ingestão de alimentos mais calóricos e prazerosos, levando a uma supervalorização do alimento e a um desequilíbrio do sistema homeostático hedônico. Em outras palavras, há uma alteração na percepção da fome fisiológica e uma busca por alimentos mais palatáveis devido à sensação de prazer.
O grande desafio na obesidade não é perder peso, mas manter o peso perdido. Existe uma razão central para isso: os mecanismos regulatórios do nosso corpo se contrapõem à perda de peso, induzindo o aumento do apetite e reduzindo a taxa metabólica (gasto energético) para recuperar o estoque de energia. O corpo não quer perder peso! Assim, ele modula a ingestão de alimentos e o gasto energético, como se estivesse se defendendo da perda de peso e tentando manter ou retornar ao peso inicial. De maneira geral, é muito importante mudar o estilo de vida, pois um ambiente obeso gênico estimula o consumo calórico excessivo. Indivíduos com predisposição ao ganho de peso tornam-se vulneráveis ao consumo de calorias influenciados pelo ambiente em que vivem.
A perda de peso sustentável é aquela que se consegue manter por um longo período. Isso requer um processo educativo e multidisciplinar para a mudança de hábitos e estilo de vida, ou seja, uma mudança de comportamento e um novo aprendizado. É necessário deixar de buscar comida como uma compensação das emoções do dia a dia e ir mais fundo, conhecendo as reais dificuldades, acessando, acolhendo e tratando essas questões. Como consequência, teremos a perda de peso sustentável pela mudança de comportamento, mediante práticas de comer consciente e com prazer, é claro!


Comentários